Fazer o bem sem olhar a quem. Por vezes penso nesta expressão e se ela se adapta ao que eu faço, ao que eu sou, ao que eu sinto.
Perguntavam-me no outro dia se
tinha ficado feliz com elogios públicos que tinham sido feitos ao meu trabalho
enquanto médico de saúde pública.
Sinto gratidão pela atenção,
pelas palavras, mas o que efetivamente me toca e me emociona é saber que o meu
trabalho tem impacto real na vida das pessoas: que morrem mais tarde, que têm
mais saúde, que se de algum modo lhes fiz bem do fundo do meu anonimato
enquanto por cá ando neste mundo.
Os médicos de saúde pública
costumam dizer, com algum sentido de humor, quando indagados sobre que tipo de
médicos são, que são aqueles que nunca recebem ovos, galinhas ou uma garrafa de
licor no Natal. São invisíveis e é nos bastidores da saúde que agem.
Se sempre assim fui, ou se
aprendi a assim viver, não sei dizer. Sou feliz neste anonimato, nestes ditos
bastidores de quem concebe, pensa em estratégias, em táticas, em ações. De quem
não descansa até que tudo esteja no terreno e se sinta os seus efeitos. Costumo
dizer que não tenho ego profissional, que não sou passível de ser ofendido ou
magoado no âmbito da minha profissão. E não, não é indiferença ou uma bolha de
proteção, é simplesmente porque assim tem de ser. Às Autoridades de Saúde estão
reservadas as decisões mais difíceis e mais duras. Os que se sentem
prejudicados pelas nossas decisões são muito vivos nas suas reações, mas os
beneficiários das mesmas, na maioria das vezes, nem sabem que alguém as teve de
tomar. E, por um lado, ainda bem que assim é. Ao fazermos o bem sem olharmos a
quem mantemos o nosso caminho reto, imune a parabenizações que nos possam fazer
sentir que o nosso trabalho está feito, está terminado, o que não poderia estar
mais longe da verdade.
Confesso que, por vezes perco-me
um pouco a imaginar quem serão as pessoas tocadas por este trabalho: o Sr.
João, a Sra. Maria, os seus filhos, os seus netos, as crianças que brincam na
rua…será que algum dia chegam sequer a saber que eu existo? Que sequer se
apercebem que todos nós existimos? Não é importante, na realidade e, por não
ser, não passam de pensamentos fugazes.
Está a chegar o Natal, embora
ainda falte mais de um mês. Contudo, nestes tempos o Natal chega cada vez mais
cedo: entra pelas nossas casas e pelas nossas vidas, trazido pelo mundo de fora
quando dentro de nós ele ainda parece longe.
Neste dia de bruma em Abrantes, o
Natal parece ainda mais perto. Penso naqueles que poderão ter mais aconchego
quando chegar o frio por causa do plano que gizei, penso que poderia se calhar
ter feito mais e mais cedo, mas sossego o meu coração, pois sou feliz no
aconchego deste meu anonimato, no aconchego deste meu ser profissional…no
fundo, no aconchego de quem sou e aprendi a ser: médico de saúde pública.
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