quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Chega o Natal a um Médico de Saúde Pública

Fazer o bem sem olhar a quem. Por vezes penso nesta expressão e se ela se adapta ao que eu faço, ao que eu sou, ao que eu sinto.

Perguntavam-me no outro dia se tinha ficado feliz com elogios públicos que tinham sido feitos ao meu trabalho enquanto médico de saúde pública.

Sinto gratidão pela atenção, pelas palavras, mas o que efetivamente me toca e me emociona é saber que o meu trabalho tem impacto real na vida das pessoas: que morrem mais tarde, que têm mais saúde, que se de algum modo lhes fiz bem do fundo do meu anonimato enquanto por cá ando neste mundo.

Os médicos de saúde pública costumam dizer, com algum sentido de humor, quando indagados sobre que tipo de médicos são, que são aqueles que nunca recebem ovos, galinhas ou uma garrafa de licor no Natal. São invisíveis e é nos bastidores da saúde que agem.

Se sempre assim fui, ou se aprendi a assim viver, não sei dizer. Sou feliz neste anonimato, nestes ditos bastidores de quem concebe, pensa em estratégias, em táticas, em ações. De quem não descansa até que tudo esteja no terreno e se sinta os seus efeitos. Costumo dizer que não tenho ego profissional, que não sou passível de ser ofendido ou magoado no âmbito da minha profissão. E não, não é indiferença ou uma bolha de proteção, é simplesmente porque assim tem de ser. Às Autoridades de Saúde estão reservadas as decisões mais difíceis e mais duras. Os que se sentem prejudicados pelas nossas decisões são muito vivos nas suas reações, mas os beneficiários das mesmas, na maioria das vezes, nem sabem que alguém as teve de tomar. E, por um lado, ainda bem que assim é. Ao fazermos o bem sem olharmos a quem mantemos o nosso caminho reto, imune a parabenizações que nos possam fazer sentir que o nosso trabalho está feito, está terminado, o que não poderia estar mais longe da verdade.

Confesso que, por vezes perco-me um pouco a imaginar quem serão as pessoas tocadas por este trabalho: o Sr. João, a Sra. Maria, os seus filhos, os seus netos, as crianças que brincam na rua…será que algum dia chegam sequer a saber que eu existo? Que sequer se apercebem que todos nós existimos? Não é importante, na realidade e, por não ser, não passam de pensamentos fugazes.

Está a chegar o Natal, embora ainda falte mais de um mês. Contudo, nestes tempos o Natal chega cada vez mais cedo: entra pelas nossas casas e pelas nossas vidas, trazido pelo mundo de fora quando dentro de nós ele ainda parece longe.

Neste dia de bruma em Abrantes, o Natal parece ainda mais perto. Penso naqueles que poderão ter mais aconchego quando chegar o frio por causa do plano que gizei, penso que poderia se calhar ter feito mais e mais cedo, mas sossego o meu coração, pois sou feliz no aconchego deste meu anonimato, no aconchego deste meu ser profissional…no fundo, no aconchego de quem sou e aprendi a ser: médico de saúde pública.

 







 

 

domingo, 13 de abril de 2025

 



Estou feliz! Estou feliz porque, ao receber esta peça, percebi a verdadeira razão porque decidi tentar adquiri-la.

Em 1982 chegou ao nosso país, era eu um miúdo, Sven-Goran Eriksson. Com ele chegou uma maneira nova de olhar o futebol, mas muito mais do que isso.

Cresci a ouvir o quão belo era o futebol praticado pelo Benfica de Eriksson, mas nunca pude ver essa beleza de arte na relva pessoalmente senão quando do seu regresso ao futebol português no ano de 1989. Nessa altura assistia no antigo terceiro anel do Estádio da Luz às exibições de grandes jogadores como Bento, Ricardo Gomes, Valdo, Schwarz, Thern, Paneira, Rui Águas, Diamantino, Vata e muitos outros, mas acima de tudo o que via era uma maneira de estar no futebol e na vida que me marcou e isso muito se deve a Eriksson.

Calmo, elegante e sempre um cavalheiro, Eriksson mostrou que era possível derrotar quem achava que os fins justificavam os meios, quem com violência, incitação ao ódio, à ameaça e ao uso de corpos de mulheres como pagamento de actos de corrupção acumulava “troféus” e “vitórias”.

Eriksson mostrou que, não somente era possível vencer, mas que acima de tudo era possível vencer com princípios, educação e correcção. Para um adolescente que, como todos os adolescentes, procurava modelos na vida, Eriksson foi um modelo de enorme importância e só agora o percebi na plenitude.

Quando vi as peças que iam a leilão após a sua morte, a maioria era obviamente dos seus sucessos desportivos pelo mundo, da sua vida como homem do desporto, mas ao ver esta peça que o comemorou como pessoa que contribuiu para a memória das vítimas do Holocausto, não tive dúvidas que era esta a peça que fazia sentido tentar adquirir.

A peça do Homem que Eriksson foi e do que realmente o define. Se fiquei imensamente feliz quando venci o leilão da dita peça, recebê-la foi um misto de emoções pela constatação táctil da tristeza da perda precoce de Eriksson, a qual pertence a todo um colectivo que o admirava, mas acima de tudo pela alegria com que constato que uma parte do homem que sou, também o devo a Eriksson pelo exemplo vivo que sempre constituiu para mim o seu modo de estar na vida.

Enquanto nos lembrarmos do seu legado humano, Eriksson estará bem vivo e essa é a maior “peça” que ele nos poderia deixar.

Obrigado “Svennis”, obrigado!

P.S. Só agora percebi que a peça foi concebida para, ao incidirmos uma luz sobre ela, projectar o texto dentro de uma "cela". Impactante!!!