quarta-feira, 1 de maio de 2019

Lisboa-Londres



As novas tecnologias são fantásticas! Chamo um Kapten, pois a Uber estava mais cara e “sai-me” o João como condutor. Ele é de Brasília, pelo que não faz a mínima ideia de como chegar aonde estou sem usar o GPS. Estão a ver o jogo Pacman? Pois, vê-lo a tentar chegar onde eu estava foi como ver um jogo de Pacman, mas com a diferença que ele não era amarelo nem comia coisas pelo caminho!

Vôo numa aeronave (ah,que saudades tinha eu de dizer aeronave - http://des-terrados.blogspot.com/2008/09/lisboa-madrid-parte-1.html ) da  TAP de Lisboa para Londres e se há algo com que podemos contar nesta vida é com a TAP. Contar que o avião não sai a horas, claro. E qual a razão desta vez? O fantástico sistema de embarque completamente automatizado e super-espectacular da TAP!

Chego à porta de embarque e verifico existirem 4 filas para embarque: premium boarding (que os executivos só falam estrangeiro), passageiros sem mala, categoria A e categoria B. Escusado será dizer que eu sou categoria B, pelo que fico para o final. Felizmente não existia categoria G de gado, se não por esta altura ainda estaria em Londres a fazer despiste para a brucelose ou algo do género.

Mas o atraso não se deveu a isto, deveu-se aos quatro avisos prévios ao início do embarque propriamente dito. Estavam quatro indivíduos a olhar para computadores sem embarcar ninguém e os avisos a soarem. Primeiro: Srs. Passageiros, bem-vindos ao vôo TAP 1352 com destino a Londres. Agradecemos que os Srs. Passageiros acondicionem a bagagem de mão, etc, etc. Repete em inglês. Aguardam-se uns minutos para a informação ser processada. Segundo: Chamamos a atenção para a fila sem bagagem de mão, para a qual se poderão dirigir, etc, etc. Repete em inglês. Aguardam-se uns minutos para a informação ser processada. Terceiro: Iremos proceder agora ao embarque, primeiro para os passageiros com crianças ou que precisem de assistência  e depois para os restantes passageiros, etc, etc. Repete em inglês. Aguardam-se uns minutos para a informação ser processada. Quarto: Primeiro embarcarão as pessoas com premium boarding, depois etc, etc. Repete em inglês. Aguardam-se uns minutos para a informação ser processada. Percebem o potencial de irritante da coisa, certo?

Se no vôo da Iberia para Madrid há dez anos atrás, os espanhóis tinham sido simpáticos q.b. e deixado o lugar do lado vazio para evitar contágios, com a TAP não tive a mesma sorte, pelo que fui acompanhado de um bife que adormeceu ainda antes da descolagem. E quando digo acompanhado, digo mesmo acompanhado. Primeiro a sua perna direita descaiu para a minha zona e entrou em contacto com a perna esquerda, depois foi a vez do braço direito descair. Fiquei à espera que a cabeça também descaísse para lhe fazer umas festas na cabeça e chamar-lhe lombinho angus, mas para vossa desilusão, tal não aconteceu.



Chegado a Heathrow, faço uma pausa para almoçar  um bacon steak acompanhado daquela batatada seca que os bifes adoram e vou para a sala de embarque que só distava 20min da zona do painel de informação das portas de embarque. Compreende-se: quem come um bacon steak tem de gastá-lo antes de uma viagem de longo curso. Há que evitar indigestões e afins!



Na porta de embarque constato a existência de um piano para quem quiser nele tocar. Pena não ser só para quem soubesse realmente tocar, pois teria evitado que um pai já saturado dos seus filhos, lhes tivesse dito para irem entreter-se para o piano. Contudo, depois desta sessão de martelanço de teclas, dois passageiros tomaram à vez o teclado e tocaram obras clássicas e jazz, pelo que o ambiente ficou muito melhor. Aliás, a vida é muito melhor com música em geral!



Seguia-se a viagem de 9h30 Londres-Vancouver, com a esperança de não ter nenhum bife com tendências descaintes...









sábado, 27 de abril de 2019

Confortos




Olho para o meu casco e entre limos e cracas carrego em mim vidas sem fim. Cada um deles marca uma paragem, uma aventura, um destino. Gosto dos meus limos e das minhas cracas. Não me pesam, são tão somente parte de mim.

Alguns de entre nós não zarpam assim, dizem-se pesados e lentos, mas eu não. Gosto de navegar assim, com todas as memórias que me trazem, mesmo que me tornem ligeiramente mais lento. No fundo ganho mais dias de mar com eles e isso nunca pode ser mau para quem se diz parte de mar feito.

Descobri-a enquanto repousava numa marina: lindíssima, elegante, de linhas modernas, feita para navegar mares altos…foi-me impossível não me apaixonar, tal a graça com que se destacava de entre todas as outras.

- Para onde irás navegar de seguida? - Quem sabe os nossos destinos estariam entre-cruzados. Marés existem muitas, marinheiros também, mas a felicidade não se faz somente de marés e marinheiros, mas também de destino e de devir.

- Por mares tranquilos e conhecidos, respondeu. Não vês os meus limos apensos? Não creio que nenhum de nós aguentaria novos mares, pois eu não me sinto capaz para tal e não quero perdê-los igualmente. Sinto-me mais confortável assim...

Confortável, pensei. Fui ver a definição de conforto, pois sobre ela nunca tinha reflectido: “Nova força, novo vigor, bem-estar, consolação, comodidade, conchego”. Nunca tinha pensado no conforto como uma força nova, mas terá o seu sentido suponho. Quando nos aconchegamos e descansamos, retemperamos forças para novas navegações, para novas tormentas e para novos destinos.

Permaneci impávido sem nada lhe dizer. Nunca tinha pensado realmente que tal seria possível: dar aos nossos limos nova força no conchego.

Um veleiro por mares calmos e sem vento forte que por ele puxe é como uma ave de asas cerceadas, pensei para com as minhas escotilhas. Existirão aves engaioladas felizes? Talvez…a felicidade depende afinal tão exclusivamente das expectativas que criamos das nossas demandas.

Virei-me para os meus limos como se de meus filhos se tratassem, pois efectivamente eram, dizendo-lhes: Quero que cresçam em mim, quero que sintam a força da vaga na proa, as correntes, as marés, o sal queimado do sol, vislumbrando novos horizontes, ora de nuvens carregadas, ora de luares espelhados. O meu conforto passa por ali, mais à frente. Conseguem vê-lo?

- Consegues ver? Consegues ver-me ainda de onde decidiste ficar?

Sinto saudades do mar, do vento, das guinadas, das rajadas, de ser surpreendido e de vincar a minha proa na água…

- Gostaria de te ter aqui, sabias? 

Do alto do meu mastro, vislumbro o mundo que me espera e abraço-o com toda a força que tenho.

Descobri contigo que o mundo me é confortável, afinal!





quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Retalhos da vida de um médico

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Local: balcão de medicina interna numa urgência nocturna de Lisboa
Protagonistas: Eu e pessoas

- Boa noite. O Sô Doutor pode ajudar-me?
- Diga: o que precisa?
- Sou acompanhante de um doente, mas não sei onde está!

Nota: o frenesim era realmente muito com macas, pessoas em cadeiras de rodas, etc, etc

- Claro, deixe-me ver no computador onde ele poderá estar. Como se chama o doente que está a acompanhar?

- Pois, isso é que eu não sei!

- Ah...

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Em memória de todos os que gritaram sozinhos


O cheiro é agoniante. Sinceramente já nem sei se ele está entranhado nas narinas, se na minha roupa ou se simplesmente no ar que teima em não perder o tom cinzento.




Continuamos a percorrer a estrada de negro ladeada. Acabámos de deixar um idoso que tinha tido a notícia de um cancro intestinal em Setembro. "Como ficámos sem electricidade fiquei sem bateria no telemóvel! Eu estou à espera a qualquer momento de um telefonema do hospital de Coimbra para ser operado. Disseram que era urgente a operação, mas eu não sei o pin do telemóvel!!!"




Afinal a carta para a cirurgia já tinha chegado, mas ele não tinha percebido o que era a carta. As árvores tombadas fazem-nos companhia. Não, estou errado. Não estão só tombadas: estão vergadas! Vergadas ao calor, ao vento, a um inferno que fez o metal gritar de dor ao contorcer-se também ele.





Parece que o outro senhor que nos tinham falado de manhã vive sozinho ao cima da ladeira que sobe do cemitério. Vamos para lá.




O fogo parou ao chegar ao cemitério! O senhor da Junta de Freguesia vem buscar uns colegas de trabalho algures na serra e dá-nos boleia no UMM. "O carro dele ardeu, mas ele anda por aí. Já o viram." A informação anterior batia certo...




 "Agora tem de descer por aquele caminho, depois vira para outro que vai encontrar e deve dar com o barraco." Obrigado, dizemos.





O caminho é ingreme e a cinza misturada com os ramos estendidos à nossa passagem não ajudam à descida.




Continuamos a caminhar. O barraco não se vislumbra, mas uma casa ardida no meio da encosta sim. Parece estar abandonada...toda a encosta está abandonada. Não se vislumbra um ser vivo.




E este cheiro que não nos larga! Agonia-nos sem nos tocar no estômago, sufoca-nos sem chegar aos pulmões...




Alguém o tinha visto depois do incêndio, mas não sabem se estará em "casa"!





Será aquilo que se vê ao longe? Alguém morará ali?




Se vive, não está. Não se vê vivalma. O fumo continua, ouvem-se bombas de água ao longe...são auto-tanques a abastecerem água do Alva. Vários...todos em fila! Isto nunca mais acaba...





Como viemos aqui parar? Ah, foi alguém no café onde tínhamos ido procurar outra pessoa que alegadamente tinha perdido a casa. Também não estava...tinha ido trabalhar. "Vai ser difícil que ele fale convosco. Ele não é de grandes falas. Pensava que tinha perdido o filho! Andou fugido do fogo no meio do monte...ainda não disse onde se escondeu!"





Esconder? Como é que alguém se esconde "disto"? Como nos escondemos da morte iminente? Do horror? Do medo? Como nos escondemos de um inferno na Terra?




"Não entrei em pânico! Sou socorrista. Foi o que me valeu. Fechei as persianas e as janelas todas e mandei todos para dentro!!!"




"Desculpe senhor doutor, desculpe!!!" As lágrimas escorrem-lhe pela face e agarra-se a mim com força!





"Eu preciso de gritar. Eles não me deixam, mas eu preciso de gritar!!!" E grita! Grita alto, grita muito, grita os seus horrores para fora dela, para que aquela serra a oiça a plenos pulmões!!! Grita no meu ombro e assim fica...






Um...dois...três...quatro...terão sido duzentos? Trezentos? Quantos segundos consegue alguém gritar e chorar ininterruptamente?






"Desculpe senhor doutor, desculpe!!! Vou deixá-lo todo sujo de cinza!"






"O fogo veio dali", diz o cunhado. "Veio uma chamusca para o outro lado e o meu irmão foi a correr com a mangueira comprida tentar apagar para que não subisse aos pinheiros."






Tinha dito que não precisava de apoio psicológico em frente à cunhada, mas assim que chegamos à parte de trás da casa desaba a chorar longe da vista de todos. "O meu irmão ainda conseguiu apagar aquela chamusca, mas de repente veio outra para cima do barraco das cabras e eu, com a mangueira pequena, não lhe cheguei"






"Morreram todas...e o meu irmão que gostava tanto delas!!! Morreu tudo: as cabras, as galinhas, os patos...tudo!!! Só tivemos tempo de ir para dentro de casa e rezar!"

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"Até a tampa da panela ardeu...como é possível? E agora senhor doutor? Que vai ser de nós?"




Quatro meses depois oiço a mesma dor, cheiro o mesmo inferno, calco as mesmas cinzas. Castanheira de Pera persiste na minha memória! "Lutei sozinho contra o fogo: com as minhas mãos!" Quantas vezes mais ouvirei esta frase?




Gosto de pensar que todos daremos a volta a isto e que Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Góis, Ansião, Figueiró dos Vinhos, Oliveira do Hospital, Arganil, Pampilhosa da Serra, Tábua e tantos outros não se repetirão. Que não mais voltarei a ouvir estes gritos, gritos que persistem em acompanhar-me. Infelizmente sei que assim que voltar para o terreno estes gritos voltarão. Uns soltos a plenos pulmões, outros mudos. Cada um de nós tem os seus gritos!




Nem todos tiveram a sorte destes homens e destas mulheres que agora gritam os seus horrores. A eles dedico estes meus gritos em palavras escritos...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Fadas e desejos

- Pai: existem mesmo fadas madrinhas? Queria tanto saber para lhes pedir desejos!!!

- É claro que existem fadas madrinhas filha. No mundo da fantasia pode existir tudo o que tu quiseres.

- Ai sim?

- Sim, mas no mundo da realidade os desejos funcionam de maneira diferente. Os desejos só se concretizam se trabalharmos e lutarmos por eles. Exemplo: o pai queria muito levar-te ao Sea Life no Porto, fazermos a viagem de avião para lá e voltarmos de Alfa como tu querias. Para isso tive de trabalhar muito, mas consegui. O meu desejo e o teu concretizaram-se, não foi?

- Foi pois!

- E tu querias um hamster no teu aniversário. O que é que o pai disse? Se te portasses bem na escola, trabalhasses e fizesses os trabalhos de casa sempre todos, que irias ter. E o que aconteceu?

- Eu fiz tudo e vou ter o hamster.

- Cá está, com trabalho e luta conseguirás sempre os teus desejos no mundo da realidade, mas acho muito bem que peças muitos desejos às fadas madrinhas no mundo da fantasia. É bom sonhar no mundo da fantasia :)

- Boa ideia pai. Vou fazer isso!





terça-feira, 14 de março de 2017

730 dias e parece que foi ontem...

Faz hoje dois anos que partiste e nos deixaste a todos mais pobres, mais tristes e em dor profunda.

Lembro-me de vir a conduzir do Algarve com uma pequena parte dos meus pertences no banco de trás após um exame teórico e vir a chorar em plena auto-estrada. Boa parte da A2 foi feita turva e, talvez também por isso, o Algarve não me deixou grandes saudades, pois era dele que partia para te acompanhar naquele processo por que ninguém merece passar de consultas após consultas, sessões de quimioterapia e angústia. Mas, acima de tudo, era para ele que voltava quando tinha de te deixar, nunca sabendo se te iria voltar a ver a sorrir para mim, se irias voltar a dar-me um beijo terno e se mais alguma vez te irias orgulhar das mais pequenas conquistas que fazia, pois todas elas eram fonte de felicidade para ti e isso dava-me, dá-me forças!

Fui reler as palavras que escrevi nas tuas exéquias e leio que iria ter saudades de rir contigo, que esperava ser suficientemente bom nesta vida para ganhar o direito de te visitar e que merecias toda a bondade que existisse no mundo, terreno ou não.

Estava errado, pois nunca deixei de rir contigo, de me lembrar de ti quando faço algo de bom e de partilhar em pensamento as minhas dúvidas e questões. Acima de tudo, dou por mim a perguntar-me muitas vezes o que dirias para me aconselhares. E o mais engraçado é que creio saber o que dirias. Se mais provas fossem necessárias da importância que tiveste na minha formação humana esta seria mais uma.

Vejo e revejo fotos tuas, mas nunca nenhuma fará jus à tua grandeza, à tua bondade, à tua capacidade de luta e à tua beleza interior.

A tua partida afinal não me deixou mais pobre. Continuas a enriquecer-me dia após dia, pois a cada passo que dou, levo-te pelo braço comigo, a cada decisão que tomo, penso-a contigo, e a cada beijo que dou na tua bisneta, dou-o contigo no coração.

Amo-te hoje e sempre minha querida Vó Tete!



Educação para o futuro ou casas de banho há muitas

- Pai: (ao passarmos em frente ao estádio do SCP) Como é que se chama o estádio do sporting?

- Casa de banho, filha, chama-se casa de banho.

- Casa de banho! Hahaha! Que engraçado pai! Porque é que se chama casa de banho?

Nestes momentos temos de ser ponderados e usar de mentiras piedosas para não ferir susceptibilidades. Dizer a uma criança de 6 anos que se chama casa de banho porque o futebol que lá se joga é uma grande caca poderia prejudicar a apetência pelo desporto e quero que a minha filha seja activa!

- É pelo seguinte filha: há muitos anos, na província, as pessoas tinham pouco dinheiro e quando faziam uma casa cobriam a casa de banho com o resto dos azulejos da cozinha, da sala e por aí fora. O sporting fez o mesmo: usou restos de azulejos de outras coisas em Lisboa para fazer o seu estádio. Daí ter tantas cores, era o que havia!


E sim, não lhe quis dizer que tinha sido coisa do Taveira, pois depois ela ia perguntar quem era o Taveira e já viram onde isto iria parar: de novo à caca!!!

- Aahhhhh. E porque é que o do Benfica se chama Catedral?

- Ora, porque, como nas catedrais, que são igrejas muito grandes, as pessoas vão lá para serem felizes e se sentirem bem. E, como ao estádio do Benfica vai muita gente para ser feliz, uma igreja não seria suficiente.  Daí chamar-se Catedral!

- Casa de banho...hahaha. Que giro!

Isto de ser pai não é fácil, mas alguém tem de assegurar o direito à educação das gerações vindouras!!!