segunda-feira, 4 de abril de 2022

Istambul - Duchambe

Chego à porta de embarque com meia hora de avanço satisfeito por ver que o voo está a horas e que, sendo assim, chegarei pelas 03h45 como esperado.

De repente, eis que surge um elemento da Judiciária Forense local todo equipado…e outro…e outro…seis…querem ver que mataram alguém no voo que trouxe o avião e nunca mais saio daqui?!? Ah não, são só orientais que decidiram que a nova moda primavera/verão é fato integral com botas, máscara e viseira…ufa!!!

Embarque feito a tempo e horas num A330 completamente lotado. Mas há assim tanta gente a querer ir para este destino? Descobri depois que a Turkish tinha 3 voos por semana e teve de reduzir para 2 voos por semana, pelo que decidiu colocar aparelhos maiores e encher estilo o 736 de manhã.

Contudo, como tudo na vida, o que parecia ia ser um voo cansativo e aborrecido, tornou-se numa daquelas experiências fantásticas que somente viajar nos proporciona.

A meu lado estava sentado um adolescente de cerca de 15 anos. Pouco depois de descolarmos, é servida a refeição e eu reparo que ele gostou bastante da tâmara que foi servida como sobremesa. Como não sou apreciador de tâmaras, pergunto se ele quer a minha ao que ele responde: No, thank you sir. Faz uma pausa e depois pergunta: “What’s your name?”.

Desta pergunta resultou uma conversa de 4 horas onde fiquei a saber que ele está no nono ano e que gosta de matemática e química, mas não de biologia. Que pratica jiu-jitsu e que já representou o país dele nos campeonatos asiáticos, mas que anda desmotivado porque treinou bastante e foi eliminado na segunda ronda dos últimos campeonatos o ano passado.

Tento animá-lo dizendo que ele deve encarar essa derrota como aprendizagem, que quando for competir de novo será mais forte por ter aprendido, mas não sei se terei sido bem sucedido.

Ele e a família de seis pessoas no total estão a voltar de duas semanas de férias na Turquia…as quais passaram bastante depressa, confessa. Gostaria de ser empresário como o pai é, mas gostaria de sê-lo nos EUA. Já escolheu as universidades de eleição: Stanford e Pensilvânia. Diz que vai fazer um curso quando chegar a altura para se candidatar a uma bolsa.

Fantástico! Tantos sonhos, tantos projectos, tantas aspirações…como é refrescante conhecer quem almeja sempre mais e melhor!!!

Mas não fui só eu que aprendi nesta conversa. Ele ficou a saber que nem todos os portugueses são amigos do Cristiano Ronaldo como ele pensava…ou do Bernardo Silva, jogador que ele admira muito também, embora o CR7 seja um exemplo enorme pela capacidade de trabalho e foco. Acho que, efectivamente, nos devemos orgulhar do nosso CR7 sempre, não por ser um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, mas pelo exemplo que dá a toda uma juventude no mundo inteiro: talento é bom, mas capacidade de trabalho e superação levam-nos onde desejarmos. Ouvir isto por outras palavras do Sadullo foi um elixir para a alma.

Aterramos na capital e peço para tirar uma foto com ele antes de sairmos do avião. Trocámos Instagram e ficámos amigos.

Esta viagem não poderia começar melhor!



P.S. Demorei quase duas horas a sair do aeroporto e cheguei ao apartamento que aluguei perto das 5 hora local…e não é que já estava no meu dia de aniversário? Feliz aniversário eu!

Lisboa-Istambul

O vôo sai atrasado uma hora e meia, reduzindo a escala de 2h45 para 1h15, o que fica eventualmente curto caso tenha de mudar de terminal e faz com que, muito provavelmente, a minha mala de porão fique para trás, mas o importante é chegar, certo?

Sento-me no último lugar da janela direita e constato, após o embarque ser dado por completo, que tenho os três lugares para mim. Boa…uma viagem à larga!!!

- Excuse me sir. Do you mind moving to 29f?

Mau! Mas querem agora ver?

- Não me importo, mas qual a razão?

- Se não quiser mudar, tudo bem.

- Não, eu mudo, só gostaria de saber a razão.

- Pode ficar aqui então…

- Eu mudo, deixe estar.

Lá me levanto com a tralha toda, mudo-me para o 29F, a hospedeira vai-se embora e eis que…chega o passageiro do 29F que me diz algo como: estás mal!

- Lá se chama a hospedeira…enfim…para abreviar a coisa: voltei ao 32F sem nunca saber porque razão eles queriam o meu lugar livre!!!

Dito isto, descolagem e a beleza de se ver a Sardenha, Nápoles, a ponta da bota de Itália, Grécia, etc.



Como apanhámos vento pela cauda, demorámos menos uma hora no trajecto, tendo essa hora sido encurtada para 30min, pois tivemos de ficar a dar voltas sobre Istambul durante 30min para podermos aterrar.

Mesmo assim, não estava mau: com 1h45 de tempo de escala, daria tempo para, tanto eu como a mala, apanharmos o próximo vôo.

Ainda não era desta que ficaria a conhecer Istambul…

domingo, 3 de abril de 2022

Partida de Lisboa

Confesso…perdão, admito…também não…constato…agora sim…constato que é com alguma ansiedade feliz que acordo duas horas antes do despertador tocar às 06h30.

Pequeno-almoço tomado e sigo para Lisboa. Chamo um Uber e vem a Kátia buscar-me que, apesar de ter 2926 viagens feitas de acordo com a aplicação, não sabe bem o caminho para o aeroporto desde o Lumiar! Como imagino que para aí um décimo das viagens que ela já fez foram ou para ou do aeroporto, conclui-se que 292 viagens não chegaram para decorar o caminho.

Chegado ao aeroporto, dirijo-me ao Check-in da Turkish Airlines para o embarque para os dois voos que me esperam.

- Bom dia Sr. Luís. Portanto, o seu destino final é o…ah…deixe cá ver o que precisa…é só teste Covid…mais nada…curioso…

Sim, o simpático rapaz da TA nunca deve ter feito nenhum embarque para o meu destino final. Aliás, tal como não tinha o meu excelso colega Dinarte Viveiros feito alguma consulta do viajante para este destino ou a enfermeira que me deu a vacina da febre tifóide. Aliás, tal como nunca nenhum conhecido meu alguma vez foi ou conhecesse alguém que tivesse ido para lá.

Constato (viram como já evitei as armadilhas judaico-cristãs da confissão e da admissão?) que, em pleno século XXI, viajar para um destino com estas características parece uma aventura…e uma parte de mim espera que assim seja!

Check-in feito e primeira notícia do dia: o vôo está atrasado uma hora. Das 2h45 de escala em Istambul só resta 1h45. Começa a ficar curto, embora tenha mala despachada e check-in do segundo voo feito.

Entretanto, descubro para meu gáudio, que, caso perca o meu voo final, o próximo será daqui a 3 dias…na quarta-feira. Efectivamente, a ansiedade feliz passou a ansiedade mista!!!

Este fim-de-semana comemora-se o centenário da partida do voo de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Eles demoraram 79 dias a cruzar o Atlântico numa aventura épica!

Eu, sendo mais modesto, contento-me em chegar ao meu destino sem gastar metade das férias em escala!

Querias uma aventura, não querias Paulo Luís? Aqui está ela...




O feito de Gago Coutinho e Sacadura Cabral foi um feito extraordinário de pioneirismo na navegação e aviação da época. Celebremo-lo com a gratidão que lhes devemos!

  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Regresso à ilha dos bravos

 


Por razões padrinhais decidi voltar a voar depois do início da pandemia. Pensei para mim: o que terá mudado na aviação? Nos comportamentos das pessoas quando viajam? Nos procedimentos das companhias?

Certamente que muito, pois o mundo não poderá voltar a ser o mesmo depois da pandemia, certo? Pois…

Decido partir para o meu destino na Ryanair. Ok, ok, caro leitor...eu sei que é começar logo a pedi-las, eu sei, mas tenha complacência e resiliência (só este último ponto afastou logo os médicos todos da leitura: “ten points”!).

A quem leu “ten points” com a voz do Eládio Clímaco posso desde já sugerir um exame à próstata se for do sexo masculino ou uma consulta pré-menopausa a quem for do sexo feminino. De nada!

Onde é que eu ia? Ah, a caminho da ilha dos bravos, mais conhecida por ilha Terceira. Se algum dos leitores não souber porque a ilha Terceira é a ilha dos bravos, não se preocupe. Quando a visitar grite a plenos pulmões à saída do aeroporto das Lajes que São Miguel é a melhor e mais bonita ilha dos Açores que rapidamente descobrirá!

Chego ao terminal 2 do aeroporto de Lisboa, mais comummente conhecido como o terminal dos enjeitados ou terminal das low-cost. Ok, terminal dos enjeitados fui eu que inventei agora, confesso! Contudo, conforme perceberão nas linhas seguintes, é um terminal “especial”!

O terminal 2 quando for crescido quer ser como o terminal 1, pelo que também tem um fast track para o raio-x. Neste caso, o fast track permite passar à frente de cinco pessoas e meia, pelo que o rácio custo/benefício é fantástico. Eu, sendo pobre e triste, não tinha fast track, pelo que segui directamente para o raio-x. Já a única pessoa que ia pelo fast track foi parada pelo segurança para confirmar se era portadora de bilhete fast-track, pelo que ficou somente not so fast track. Idiossincracias!

Primeira constatação: nada mudou no raio-x desde o início da pandemia. Os oficiais da coisa continuam entusiasmados com a sua profissão, não perdendo uma oportunidade de o demonstrar dizendo “neeext” sempre que a carneirada se atrasa.

A Ryanair mantém a sua política de separar o embarque por prioridade e não prioridade, pelo que aqui volta a haver segregação dos carneiros por carneiros de primeira e carneiros de segunda. Desta vez o vosso escriba aqui ficou colocado na categoria de carneiro de primeira, pelo que pode testemunhar o seguinte bem de perto.

A aeronave que nos transporta chega 40min antes da hora de partida. Ora, dará 40min para desembarcar os passageiros, reabastecer, limpar o avião, embarcar, fazer os procedimentos de segurança e descolar?

Primeiro ponto: desembarque. O dito cujo faz-se em cinco minutos. Três autocarros levam os desembarcados rapidamente, ficando o reabastecimento a decorrer.

Segundo ponto: limpeza do avião. As equipas precipitam-se para o interior do avião para proceder à desinfecção e limpeza….aaahhhhh….apanhei-o caro leitor…não existem equipas de limpeza, nem desinfecção do avião…quanto à “limpeza”, um saco preto de lixo ao início das escadas traseiras denuncia o “acto”.

Faço um pequeno parêntesis para abordar o fantástico tema de como passados dois anos ainda existem pessoas que não sabem usar uma máscara! E assim se explicam tantas gravidezes indesejadas!!!

Terceiro ponto: passaram 12min entre a chegada do avião e eu estar a bordo dele. O restante embarque é feito em oito minutos…a carneirada ainda não é rápida o suficiente, pelo que a hospedeira italiana diz naquele inglês fantástico dos italianos: “Plize muve alongue de áile end teique ior sit as quickli as póssible”. Quem leu isto com sotaque do capitão Bertorelli do Allo Allo tem mesmo de marcar o seu exame à próstata ou etc, etc!

Continuação do segundo ponto: chegado ao meu lugar encontro um isqueiro no assento. Tenho um espasmo cerebral e pergunto-me: ora, da última vez que fiz isto, creio que isqueiros não eram permitidos. Deixa cá perguntar à hospedeira: “excuzemi: is dis aláude? It uas in mai sit” (isto é só para verem que eu até sou um tipo simpático e flexível culturalmente).

Ela sorri em italiano, pega no isqueiro e fica com ele. Depreendo que não, portanto!

Sentado, assisto ao fantástico desporto olímpico do “Enfianço da mala no compartimento da dita” até ao grande momento do embarque em que a italiana diz a um senhor que se queixava que o seu lugar estava ocupado: “dis is not ior flaite, sâr”.

Ora cá está algo que antes da pandemia não havia. Finalmente, uma diferença! Agora já se consegue passar por vários controlos e entrar no avião errado. Pena foi que o lugar dele estivesse ocupado, pois teria sido infinitamente mais divertida a viagem se ele só descobrisse quando o piloto dissesse que a nossa rota para a Terceira seria calma, etc e tal…já a 5000 pés de altitude!

Bem, lá abriram a porta da frente de novo e empurraram o rapazola escada abaixo para aprender a não se meter onde não era chamado!

É claro que este acontecimento estragou todo o ritmo de operações da coisa e levou a que descolássemos com um atraso significativo. Ao escrever estas linhas ainda não sei se isto quererá dizer que não ouviremos a festa da Ryanair ao chegarmos dentro do horário, mas espero sinceramente que não, pois aquilo é extremamente irritante.

Falando em irritante, será que sou só eu que não percebo porque é obrigatório usar máscara no avião, mas poder-se comer e beber à vontade num vôo de duas horas, sendo mesmo vendidas lasanhas e derivados? Assim de repente parece-me só idiota, mas deve ser culpa minha.

Felizmente o meu companheiro de viagem é uma pessoa informada, pelo que vai de FFP2 colocada a ler o jornal e não comprou nada para comer…hã…o que é isto? Uma banana? Ele vai comer uma banana? Não aguenta duas horas sem comer a banana?

Bem, ao menos eu tenho uma FFP2, pelo que nada cá entra…espera lá…mas cheira-me a banana…ai o caneco…mas não era suposto nada aqui entrar? Para a próxima trago uma FFP3 ou o escafandro de mergulho!!!

Agora a rapariga ao lado compra um kit kat e uma água…estou feito…ninguém quer comer uma chispalhada, já agora?

Bem, isto está a começar a descer, sinal que deve faltar pouco tempo para voltar a por os pés na região que me viu crescer e me fez homem (dispensam-se as piadas sobre o facto de a região ainda não ter acabado a tarefa).

Até já ilha dos bravos!!!

 


domingo, 2 de maio de 2021

A Ana...deixou-nos...

 



A Ana…deixou-nos…

A Ana era Esposa…e deixou-nos…

A Ana era...Intensidade em forma de Mulher…e deixou-nos…

A Ana era Mãe…e deixou-nos…

A Ana era Mil Mulheres numa só…e deixou-nos…

A Ana era Professora…e deixou-nos…

A Ana era Amor em todas as suas formas…e deixou-nos…

A Ana era Pedagoga…e deixou-nos…

A Ana era Líder por exemplo…e deixou-nos…

A Ana era Orientadora Científica…e deixou-nos…

A Ana era Regra e Excepção em si mesma…e deixou-nos…

A Ana era Amiga….e deixou-nos…

A Ana era Completa e Imperfeita…e deixou-nos…

A Ana era a maior Embaixadora do seu Pico e dos seus Açores…e deixou-nos…

A Ana era Tenaz e Sagaz…e deixou-nos…

A Ana era Bióloga…e deixou-nos…

A Ana era um Furacão Humano…e deixou-nos…

A Ana era uma Amante das suas Algas…e deixou-nos…

A Ana era Corajosa e Carinhosa…e deixou-nos…

A Ana deixou-nos…

Deixou-nos…mais felizes…

Deixou-nos…mais conhecedores…

Deixou-nos…mais gratos…

Deixou-nos…mais privilegiados…

Deixou-nos…mais dedicados…

Deixou-nos…mais crentes…

Deixou-nos…mais apaixonados…

Deixou-nos…mais envolvidos…

Deixou-nos…mais deslumbrados…

Deixou-nos…mais humildes…

Deixou-nos…mais Açorianos…

Deixou-nos…mais Humanos…

A Ana era a Ana…

A Ana…deixou-nos…

 

 

 

 

sábado, 6 de junho de 2020

Decisões que custam e salvam vidas



A actividade não urgente nos hospitais de Lisboa voltou hoje a ser suspensa pelo decisor. Qualquer decisor sabe bem que, quando se toma uma decisão deste género, isto custará qualidade de vida aos doentes que esperam por cirurgias, consultas e tratamentos, sem contar com os que verão doenças anteriormente com melhor prognóstico a deteriorarem para doenças com prognóstico menos favorável, como é o caso dos doentes oncológicos.

Por isso, a pergunta que se coloca é a seguinte: por que toma um decisor esta decisão? A resposta é, por incoerente que pareça - para salvar vidas.

Perante o aumento do número de casos de Covid-19 na área metropolitana de Lisboa, e com a perspectiva a curto prazo de a assistência a estes casos requerer todo o manancial humano e técnico disponível, ao decisor cabe escolher o menos mau de dois cenários.

Feitas as contas, que depreendo que tenham sido feitas, o decisor concluiu que mesmo que usando a capacidade de resposta de regiões adjacentes à área metropolitana de Lisboa, tal não será suficiente para dar resposta ao que poderá estar para vir e tomou esta decisão.

Contudo, para além da não reabertura, por enquanto, das grandes superfícies comerciais, apesar do espectro de falência sobre algumas empresas da área, não foi revertida nenhuma medida do desconfinamento.

Encerram-se a actividade não urgente dos hospitais de Lisboa, mas a montante do problema, continua a poder-se ir à praia, a viajar em aviões cheios, a usar transportes públicos para além de cheios, etc, etc. E por quê? Porque o decisor já percebeu que, caso a economia não comece a funcionar, isso custará igualmente vidas.

Uma coisa foi parar o país para evitar a hecatombe humanitária e económica de Itália e Espanha, dando-nos tempo para aumentarmos a capacidade de resposta do país para a pandemia. Sobre o porquê de sermos anteriormente o país com menos camas de cuidados intensivos da Europa dita Ocidental e agora ser preciso comprar tudo a correr, não me irei pronunciar. Cada um tirará as suas conclusões. Outra coisa será manter o país fechado por mais tempo, o que creio que todos já percebemos será muito difícil de fazer.

Perante o actual cenário de termos uma área metropolitana de Lisboa com bairros que toda a gente fingiu não saber que existiam, habitados por populações que ganham “à jorna” como há um século atrás, com uma elevada densidade populacional e que não permite isolamento de qualquer tipo (com ou sem portas de cafés soldadas como no bairro da Jamaica), a perspectiva não é animadora. E sim, este tema sobre o desinvestimento no interior do país que levou a esta concentração populacional nas zonas em questão (aqui, poderia debater-se a questão do novo aeroporto do Montijo vs uma linha ferroviária de alta velocidade, que potenciasse o aeroporto de Beja e o Baixo Alentejo, em geral, por exemplo) daria pano para mangas.

Contudo, este é o cenário actual que os decisores têm pela frente:

- Vive muita gente pobre (sabendo-se que a pobreza é factor de risco para qualquer doença, não sendo a Covid-19 excepção) na área metropolitana de Lisboa;

- Esta gente precisa de alimentar as famílias e precisa de rendimentos;

- Não há como deslocar repentinamente estas pessoas para um interior desertificado e sem capacidade de providenciar trabalho, de modo a corrigir a assimetria de densidade populacional;

- Sem o turismo (restaurantes, lojas, hóteis) a funcionar minimamente (nem que seja o interno), a economia afundar-se-á ainda mais e o estado não terá meios financeiros (15,5 mil milhões de euros chegarão se forem simplesmente usados a médio/longo prazo para sustentar uma economia parada?) para evitar a perda de mais vidas por algo que, por vezes, esquecemos ser muito comum noutras paragens, e que dá pelo nome de fome;

- O Serviço Nacional de Saúde (SNS) não consegue (nem o nosso, nem nenhum outro) prestar o serviço não urgente ao mesmo tempo que lida com um surto da pandemia (será que se requisitasse a capacidade privada continuaria a não conseguir?);

- Uma franja da população, os mais jovens principalmente, continuam a ter comportamentos não adequados, não praticando distanciamento social ou usando máscaras em locais públicos;

- Somos uma sociedade com um índice de envelhecimento muito elevado, o que potencia os danos da Covid-19.

Perante estes pontos, e mais haveriam para colocar, qualquer decisão custará vidas, já se percebeu.

Recuar no confinamento custará vidas, fechar a actividade não urgente hospitalar custará vidas, deixar a economia funcionar livremente custará vidas…qualquer caminho custará vidas.

E isto acontece porque Portugal, décadas a fio, se colocou a jeito: com uma economia altamente dependente de actividades não primárias (quem não se lembra do sucesso que era no Cavaquismo abater traineiras e comprar jipes com os subsídios da UE para esse abate, pois iríamos ser finalmente um país moderno?); com uma população envelhecida, para a qual contribuiu a ausência completa de reais apoios à natalidade, e com um desinvestimento gradual no SNS, desinvestimento esse em capacidade física (aguardam-se vários hospitais novos há décadas), técnico (material obsoleto em muito do SNS) e humano (carreiras médicas e de enfermagem congeladas, ausência de aumentos de vencimentos há anos, etc).

É tudo mau? 

Não, continuamos a ter um SNS (leia-se profissionais de saúde) que, apesar de esfaqueado em várias áreas vitais, continua a lutar, a ser resiliente e a dar o seu melhor. Mas não chega para tudo, como se pode ver com a decisão de hoje. 

Continuamos a ser um povo solidário, capaz, inteligente e resiliente.

Resta esperar que todos nós sejamos capazes de perceber que esta guerra está longe de estar terminada, que dependerá muito de nós minimizarmos comportamentos de risco, que depende de cada um de nós agir e dar o exemplo, com o “simples” objectivo de que o menor número de nós faleça…perdão, morra. 

Sobre os decisores cai, perdoem-me o pleonasmo, o ónus desta decisão: a decisão que venha a custar menos vidas. Espero que acertem. 

Paulo dos Santos Luís – Médico interno de Saúde Pública (ACeS Pinhal Interior Norte), Mestrando em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Dona A.




Há dias assim. Dias em que não somos capazes de nos sentirmos felizes com o que corre bem. 

Hoje a Dona A. faleceu. Não a conhecia, nunca falei com ela, não sei se era alta ou baixa, gorda ou magra e até há cinco dias nem sabia que existia, confesso.

Lamento que todos os nossos esforços não lhe tenham permitido sobreviver, que todos os cuidados que temos há meses para minimizarmos os riscos de contágio no concelho de Oliveira do Hospital não tenham chegado para evitar que se contagiasse e que em menos de uma semana partisse.

Durante estes cinco dias várias pessoas estiveram sob nosso acompanhamento (não gosto da palavra técnica vigilância, confesso...sou médico, não vigilante). Destas pessoas acompanhadas, a maioria estava bem, algumas tinham sintomas ligeiros e outras recuperaram completamente e foram dadas como curadas.

Por cada pessoa recuperada há uma pequena vitória e, de pequena vitória em pequena vitória, vamos esperando que os dias sejam feitos somente destas pequenas vitórias. Esquecemo-nos que existe outro desfecho possível que surge abruptamente com um telefonema.

O Sr. N., ao despedir-se hoje de mim, na sequência do acompanhamento que fiz da sua situação, da situação da sua mulher e da situação do seu filho, disse-me:

- Quero agradecer-lhe a atenção e o cuidado. Ouve-se que foi montado todo um sistema para a Covid-19, mas só quando passamos por isto é que percebemos o que isso implica. Por isso, em meu nome e da minha família, agradeço a si e aos seus colegas terem tomado conta de nós durante este período.

Sempre que alguém nos agradece o trabalho que fazemos, respondemos que estamos cá para isso, mas hoje, depois da partida da Dona A., estas palavras tocaram mais fundo, tocaram num sítio onde outras igualmente sentidas por quem as tinha proferido não tinham tocado.

A Dona A. não teve a oportunidade de dizê-las,  nem teve a oportunidade de se despedir dos seus...não teve, simplesmente, oportunidade.

Hoje o dia acaba triste, mas quero dizer-lhe Dona A.: a sua partida reforça a determinação e a vontade que vivem em nós para que as pequenas vitórias continuem dia após dia, semana após semana...para que todos tenham oportunidades de se despedirem, não dos seus, mas de nós. Estaremos cá, não para ouvirmos os agradecimentos, mas pelo que eles significam: que aqueles de quem cuidamos continuam a ter oportunidades.

Até um dia Dona A. Não me esquecerei de si…