terça-feira, 19 de abril de 2022

Dia 7 - De Duchambe a Haftkul/Sete Lagos - 280km

 Confesso que acordo moído da viagem de ontem às 40 raparigas, mas entusiasmado com os dias que se seguem. Hoje faço a mala para o circuito maior da viagem: ida para o Uzbequistão, onde visitarei várias cidades da Rota da Seda e regressarei pelo norte do Tajiquistão.

Por hoje irei visitar os Sete Lagos e depois seguirei para a fronteira que atravessarei a pé. Se tudo correr bem visitaremos Sarazm, património UNESCO cuja história remonta a 4000 A.C..

Mas, para já, a saída de Duchambe. Abastecemos o jipe (que funciona a GPL, como a esmagadora maioria dos veículos no Tajiquistão) e percebo que estamos a abastecer na Gazprom. Sou agora o feliz possuidor de uma factura da Gazprom…hum…adiante!



                                                                                    

Saímos em direcção a Noroeste e avisam-me que teremos de pagar portagem. Portagem? Boa! Teremos auto-estrada e será bem mais rápido e cómodo, penso eu. Hahaha, dizem vocês…e dizem bem!!!

Efectivamente, a estrada portajada é uma estrada comum cheia de camiões que se dirigem para a zona mineira de carvão daquela parte do país, pelo que de rápido nada tem.

Durante a primeira parte da viagem viajamos junto a um rio que é ladeado por casas de veraneio dos habitantes da capital. Num país onde a água é um bem relativamente escasso, ter casa à beira-rio é um luxo.

Rapidamente a paisagem passa a ser constituída por fantásticas montanhas escarpadas e cobertas de neve, pelo que a viagem começa a ser feita mais devagar ainda.


Curva após curva chegamos a um famoso túnel que demorou quase dez anos a ser acabado depois da sua inauguração. Faz-vos lembrar algum país da península ibérica começado em Portu e acabado em gal? Pois! O túnel de Istiqlol tem mais de 5000m de comprimento e foi construído por uma empresa iraniana. A qualidade de construção deixa um bocado a desejar efectivamente, pois o piso não é grande coisa, há muito pó dentro do túnel e água a escorrer. A sensação de o atravessar não é a mais confortável, confesso. Mesmo assim, é um grande avanço para o Tajiquistão, pois antes do túnel a viagem era muito perigosa devido ao risco de avalanches nas montanhas.



Passado o túnel e o desconforto da sua travessia, está chegada a hora de almoço, pelo que paramos num restaurante à beira da estrada para camionistas. Estas escolhas nunca enganam em qualquer lado do mundo! Deixo-vos com as imagens desta fabulosa refeição…só posso dizer que foi das melhores que tive durante a viagem. Esqueci-me de tirar foto ao borrego com batatas…desculpem lá!




À medida que descemos dos quase 3000m de altitude, a paisagem fica com menos neve e começam-se a ver rios que cruzam a paisagem árida.



Continuamos a descida e o verde começa a aparecer na paisagem…a água modifica a paisagem pouco a pouco.


Seguimos em direcção à fronteira do Uzbequistão. Passamos por mais montanhas, rios, paisagens deslumbrantes. Contudo, antes de irmos em direcção à fronteira, temos que ver os Sete Lagos, dizem-me. Eu, do alto (ou baixo) da minha ignorância, imaginava um local de onde se pudessem ver os sete lagos uns aos pé dos outros.

“Agora que estamos a sair da estrada de alcatrão são 14km pela estrada de terra”. 14km na estrada de terra? E voltar? Espero que bem sejam uns lagos fantásticos, penso!

Começamos então pela estrada única que serpenteia pelo fundo do desfiladeiro. Por muito que tente partilhar a sensação que temos ao percorrer esta estrada, nunca o conseguirei fazer. Silêncio, vento, aridez, água…mais silêncio enredado no vento…ou será o contrário? Aqui a água do degelo dos glaciares corre, fazendo brotar algum verde aqui e acolá.





Passo por algumas pessoas, casas no meio do nada, localidades no meio do nada, cada vez mais longínquas do que nós chamamos de civilização…burros, cabras…


…de repente muitas crianças a saírem da escola…mas onde está a escola? Paro para tirar umas fotografias e elas cumprimentam-me. Parece que não viam turistas há muito tempo por causa da pandemia.


Temos de seguir viagem, dizem-me. São quase cinco da tarde e ainda não chegámos aos lagos…e há que fazer o caminho de volta até ao alcatrão e depois até à fronteira…e depois da fronteira até Samarcanda. O dia será efectivamente longo.

Seguimos e rapidamente dizem-me: eis o primeiro lago.


O quê? Mas é um lago de cada vez? Sim, claro…os lagos formam-se ao longo do caminho. O Alishir e a Zarina estão tristes. Os lagos ainda estão muito pequenos, o degelo só agora começou.

Eu, por outro lado, estou extasiado!

Continuamos a viagem…a paisagem surpreende-me a cada curva, a cada lago, a cada localidade.




Mas “isto” não acaba? O pobre Alishir pára sempre que lhe peço. Pagarei um preço por tantas paragens, mas ainda não o sabia na altura.


O que é aquilo? Um rebanho? Um pastor?


De onde vieram?


Pego na câmara e faço zoom…é um menino…um menino pastor…ele não me vê. De cócoras olha a água…ou as cabras…ou as rochas…ou nenhuma destas. 

A sua meninice é esta, os seus brinquedos não imagino quais sejam. Será que sabe o que são? Que sabe o que é a infância?



Perco-me nestes pensamentos. Paulo! Paulo! Temos de ir.

Sim, claro…temos de ir. Entro no jipe…as lágrimas correm secas dentro de mim.

Chego a uma localidade…a cor nas montanhas não engana…vem aí o por-do-sol.


Continuamos…será que estou a ver bem? É mesmo? É um jogo de futebol!



O jogo pára assim que me vêem. Correm para mim. Confesso que não sei bem o que fazer. Páro de fotografar e filmar. Um deles tem uma camisola do Real Madrid, reparo. Aponto para a camisola e digo Real Madrid. Ele acena com a cabeça.

Cumprimento outro e outro…de repente o primeiro vira-se…é uma camisola do Cristiano Ronaldo! Não sendo uma surpresa total ver uma criança com uma camisola do nosso CR7, não deixa de ser algo que não esperava. Todos me querem cumprimentar…um deles tem uma camisola do Barcelona.

Imagino os fantásticos dérbies Barça-Real que aqui se jogam no vale do Rio Shing.


Meio atordoado, despeço-me. Mais tarde arrependo-me tremendamente de não ter ido jogar com eles. Uns meros 5min para fazer parte do mais fabuloso Barça-Real da História. Infelizmente, não me ocorreu na altura e quando fiz o caminho de regresso já o dérbi tinha terminado e não havia sinais dos jogadores.

Faço o resto da viagem com a voz embargada. Seguem-se mais paisagens espectaculares, mas as palavras não surgem.

Ficam as imagens...




Percorremos os 14km de volta e a noite cai. Infelizmente, já não conseguiremos visitar Sarazm e chegaremos à fronteira já de noite. O Alishir deixar-nos-á no lado Tajiquistanês da fronteira e voltará a apanhar-nos noutra fronteira daqui a uns dias.

A fronteira será para ser atravessada a pé com as malas, mas isso ficará para a próxima crónica.







segunda-feira, 18 de abril de 2022

Dia 6 de tarde - chegada a Childukhtaron/40 raparigas

Mal fazemos alguns quilómetros, o nosso destino aparece ao longe, o que faz sentido, pois tínhamos passado toda a manhã em viagem.

Uma cordilheira montanhosa com figuras ainda indiscerníveis ao fundo aparece…a estrada piora consideravelmente, ao que eu comento. A resposta é algo como: “Isto? Isto é muito bom!”. Efectivamente, era...eu é que ainda não sabia.

Já são quase 14h00 e ainda temos o caminho para trás…fico entusiasmado com a perspectiva de chegarmos ao destino até que me apercebo que ainda temos de atravessar um desfiladeiro para lá chegarmos! Não que a viagem em si não esteja a valer a pena, é claro que está…mas, tal como uma criança, quero ver o destino que nos trouxe aqui.

Faço zoom com a câmara e começo a vislumbrar as quarenta raparigas…quero dizer...mais ou menos...cof.


Iniciamos a descida até ao vale, onde sou surpreendido por toda uma natureza que não conseguia vislumbrar de cima. Peço ao Alishir para parar mais uma vez e saio…o único som que se ouve é do rio que corre, filho dos glaciares que vislumbro. A meu lado alguns cavalos parecem perguntar que faço eu ali, ao que lhes respondo que estou propositadamente perdido a seu lado. Ignoram-me e continuam a sua lide alimentar contínua.


Atravessamos o rio que aqui é mais tumultuoso e entramos na estrada de terra que nos fará companhia por alguns quilómetros ainda. Na estrada segue uma mulher de burro. Para onde irá e de onde vem é uma incógnita.


Finalmente chegamos ao nosso destino: Childukhtaron/40 raparigas!




Pronto, se calhar é preciso um pouco de imaginação para imaginar 40 raparigas nas montanhas, mas passo a contar-vos uma das versões da lenda que está por detrás do nome deste local.

40 raparigas de aldeias vizinhas, com a chegada dos invasores mongóis de Genghis Khan, deram-lhes luta e venceram, tendo sido petrificadas na montanha, de modo a permanecerem virgens e para sempre defensoras do vale.

A verdade é que este local faz parte de um parque natural belíssimo situado na província de Khatlon, sendo local de peregrinação e decorado com flores e laços na primavera.

À nossa chegada nada se ouve a não ser pássaros a cantar e o vento a soprar levemente…nada se ouve excepto uma enxada que ecoa ao bater na terra. Viro-me e vejo um velhote a cavar num canteiro de uma espécie de miradouro.

Com a ajuda preciosa da Zarina e do Alishir pergunto como se chama. Vovô Zarif, dizem-me. Tem setenta anos, tendo já ultrapassado em cinco anos a esperança média de vida dos Tajiques. Olho em volta e pergunto-me como ele terá ali chegado. Não vislumbro nenhum burro amarrado.

Consta que toma conta daquele espaço, o qual foi construído para o presidente ir inaugurar o miradouro e que se encontra aparentemente fechado.


Continua a cavar enquanto tiro fotos…sigo com o Alishir e aproveito para tirar uma foto com ele. Creio que a imponência do local se adequa à imponência do Alishir!



Ao descer para o carro passo pelo Vovô Zarif de novo, o qual continua a cavar o seu canteiro ao mesmo ritmo. Peço para tirar uma foto com ele, pedindo para lhe dizerem que valorizo imenso o seu trabalho e o seu cuidado com o espaço. Ele simpaticamente acede, embora a simpatia não transpareça na sua expressão facial. Tanto o sol, como o ar da montanha tornaram aquela face quase tão empedernida como as raparigas atrás de nós.



Despeço-me e sigo em direcção ao carro. Pergunto se seria ofensivo dar-lhe algum dinheiro, um reconhecimento pelo seu trabalho. Dizem-me que não e assim faço. Ele pega no dinheiro e diz-me: “desejo que Deus lhe devolva muitas vezes o que acabou de me dar”.

E assim parto…sei que para mim aquela quantia era irrisória, mas que lhe terá valido se calhar um ou dois dias de trabalho. Mais do que o valor monetário, o reconhecimento de uma vida de trabalho árdua, a qual sinto que o Vovô Zarif levará até ao seu último dia terreno.

Volto a inspirar profundamente aquele ar da montanha e assim fico a admirá-la. Relembram-me que temos quase cinco horas de viagem até casa e que já são quase três da tarde.

Partimos de regresso. Comigo levo o Vovô Zarif, o ar da montanha, a bravura das quarenta raparigas e toda a história de um povo em que muitas das suas lendas incluem invasões e destruição e que, mesmo assim, vive com candura.

Não poderia ter começado melhor esta viagem pela Ásia Central!







  







domingo, 17 de abril de 2022

Dia 6 de manhã - viagem para Childukhtaron/40 raparigas - 464km

Hoje começam as minhas deambulações pelo Tajiquistão. O percurso estimado é de 230km para cada lado, sem contar com desvios e afins. Escusado será dizer que a melhor expectativa possível será encontrar estradas de alcatrão de uma via para cada lado, pelo que uma rápida espreitadela ao googlemaps é perentória ao indicar 4h15 para cada lado, sem contar com as inúmeras paragens. 

Esta é a segunda lição do dia: aqui tudo está imensamente longe e a noção de ali ao lado ganha uma perspectiva que nem os alentejanos se aproximam!

Qual foi a primeira lição do dia, perguntam? Simples: trabalhar com um micro-ondas em russo para aquecer o leite!!! 

Entro no jipe que servirá de “casa” nos próximos dias, pois a verdade é que passarei mais tempo nele do que em qualquer outro lugar. Saímos então. O condutor, o Alishir, não fala bem inglês, mas fala o suficiente para perceber quando lhe peço para parar para tirar fotos…e eu peço muitas vezes, acreditem! Contudo, o que lhe falta em inglês sobra em simpatia, pelo que tudo está bem.

Percorridos os primeiros quilómetros e o cenário que encontro é de paisagem aberta, muitas vezes verdejantes, sempre com o complexo montanhoso com neve ao fundo. Passando algum tempo é tudo o que vejo e decido pedir ao Alishir para fazer a primeira paragem. Respiro fundo o ar das montanhas e oiço o cantar dos pássaros. Dizem-me que venho na altura mais bonita do ano…começo a acreditar que poderão ter razão.

De volta à estrada, aproximamo-nos de um túnel com 2800m que nos permite poupar 40min de caminho pelas montanhas. Este túnel não tem qualquer iluminação, pelo que só contamos com a iluminação do jipe. Naqbi rathlon é o seu nome e é uma das marcas do desenvolvimento do Tajiquistão. Nos próximos dias teria oportunidade de perceber a diferença que estes túneis fazem na vida e na economia do país.

Descendo a montanha, chego ao rio Vakhsh e é impossível não ficar emocionado com a paz com que percorre o vale. Os glaciares são os grandes fornecedores de água do país. Estando nós somente no início da primavera, o caudal ainda é muito pequeno comparado com o que será, segundo me dizem.

Depois de alguns breves momentos de inspiração profunda da ambiência, volto à estrada e volto a subir de novo. Em breve estou no topo da próxima montanha, onde posso apreciar a zona criada pela grande barragem de Nurek, construída pelo Tajiquistão e que deixou os vizinhos do Uzbequistão a reclamarem do corte da água do rio que segue para lá, como virei a confirmar na visita a Samarcanda. Na altura em que foi construída, em 1980, era a maior barragem do mundo com 300m de altura, só tendo perdido esse título em 2013.

Mais uns momentos para respirar a envolvência e continuamos. Passa meia hora, passa uma hora e a paisagem começa a mudar. O facto de nos afastarmos da bacia da barragem tem o seu impacto e a paisagem começa a ficar mais seca, altura em que começam a aparecer os inefáveis rebanhos, aos quais me passaria a acostumar como companheiros de viagem. Já os tive piores!


À medida que a estrada percorrida fica para trás, vou-me deparando com uma espécie de pórticos que indicam sempre que estou a entrar noutra região administrativa.

Estes pórticos podem ser maiores, podem estar somente ao lado da estrada, mas são sempre acompanhados posteriormente de outra característica muito tajiquistanesa: a paragem stop pelas autoridades policiais.

 


Na capital estão constantemente na estrada a mandar parar…e sempre equipados com pistola radar. Nem sempre é para multar, muitas vezes é para sensibilizar para o excesso de velocidade. Só no Uzbequistão viria a perceber a importância desta presença policial tão marcada!!!

Seguimos caminho e sucedem-se paisagens mil…deixo convosco algumas delas…as quarenta raparigas ainda teriam de esperar um pouco mais…










Chega a hora do almoço…é Ramadão e estamos no interior do país. A probabilidade de encontrarmos um restaurante aberto para almoçarmos não parece elevada, especialmente depois de descobrirmos que o único hotel da vil(Khovaling) está fechado.


Paramos para perguntar aos transeuntes onde poderemos almoçar e indicam-nos um restaurante. Entramos e perguntamos se nos podem servir algo. Estamos com sorte. Estão fechados, mas como receberam informação que um grupo grande se dirige para cá, estão a cozinhar e poderão servir-nos algo. Chilchanor é o nome do estabelecimento, o mesmo nome da região onde nos encontramos.

Comemos descansadamente num lindo salão uma refeição deliciosa e estamos prontos para continuar.




O meu coração e vista já iam bem preenchidos e ainda não tínhamos sequer chegado ao nosso destino…

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Dia 5 - tarde - visita ao Museu e Mercado

 

Colocamo-nos a caminho da mesquita e do mausoléu do Séc. XVI, a qual está muito degradada, mas alegadamente em reconstrução. Aliás, está em reconstrução é algo que tenho ouvido muito por aqui, mas ver alguém efectivamente a trabalhar na dita reconstrução é que nem por isso. Será por estarmos no Ramadão? Quando perguntei ao Acmal qual era o prazo previsto para estar pronto todo o novo complexo que inclui museu, etc e tal, a resposta foi: é um trabalho que se vai fazendo dia após dia…elucidativo!!!


Ao sairmos da mesquista vejo mais um grupo de crianças a caminho da escola. Estamos numa aldeia relativamente pobre, nada a ver com a capital Duchambe. Já me tinham dito que era costume os miúdos irem sempre de fato/vestido para a escola, mas pensei que fosse mais na capital. Estava profundamente enganado! Confesso que admiro imenso o esforço destes pais para que os seus filhos se apresentem na escola deste modo. Não deverá ser fácil.

Pergunto ao Acmal se seria levado a mal eu pedir para tirar uma foto deles, pois estavam muito elegantes, ao que ele me responde: tirará uma foto com eles. Venha!

Pedi para o Acmal lhes dizer que eu achava que eles estavam muito elegantes, o que os fez sorrir. Se o dia não estivesse já “ganho”, tê-lo-ia ganho aí!

Entretanto, a fome aperta e está na hora de procurarmos onde comer. Como estamos no Ramadão, encontrar onde comer fora da capital é complicado, mas depois de umas indicações lá damos com a coisa.

Clientes à vista: zero, empregados à vista, idem. Entretanto, aparece um responsável que nos diz que não estão a servir ao almoço, mas que nos preparará algo por sermos estrangeiros. O algo revelou-se frango feito de dois modos diferentes, uma salada de tomate e cebola e vários molhos tradicionais para acompanhar, sem contar com o pão local.

O local? Este!


Se repararem, à direita desta última foto existem umas cabaninhas. São salas de refeições privadas, o que me dizem ser muito comum nos restaurantes locais para os homens trazerem as suas segundas e terceiras esposas. Não é permitido casar oficialmente com mais do que uma, mas a se primeira aceitar, o homem pode casar-se religiosamente com mais duas, desde que possa dar o mesmo apoio financeiro a todas e a todos os filhos, independentemente de ser casamento oficial ou não.

Energias recarregadas e hora de ir para o museu nacional na capital, onde a Camila nos recebe e nos explica toda a História do Tajiquistão em uma hora. Como já perceberam pela crónica da manhã na Fortaleza de Hissar, é completamente impossível registar tudo, pelo que aproveito para consolidar alguns dos conhecimentos que o Acmal me tinha transmitido de manhã.

Para além de imensas peças fantásticas, a peça principal do museu é o buda deitado, um buda “original” que foi trazido de uma caverna a sul onde tinha sido esculpido há séculos para o museu. O tronco foi reconstruído, tal como a parte inferior da cabeça, mas o resto é original.

Dia comprido, o cansaço acumula-se, mas falta uma última paragem: o mercado. Creio que as fotos falam por si, embora a mistura de aromas no ar seja impossível de descrever!






Agora sim, depois da visita ao mercado, hora de dar o dia por terminado. Confesso que muita coisa ficou por contar nesta crónica, mas guardarei para uma crónica final onde falarei de vários temas soltos.

Até amanhã que o descanso chama por mim!

terça-feira, 5 de abril de 2022

Fortaleza de Hissar - Dia 5 de manhã - 53km

Uau! Por onde começar? Antes de mais, tenho de partilhar que jamais conseguirei colocar “no papel” o dia fascinante que acabei de ter, a quantidade de experiências e de partilhas, de aprendizagens e de hospitalidade de toda a gente com quem contactei!

Limitar-me-ei a fazer uma descrição o mais fiel possível de tudo. Se, no final, sentirem que ficou algo por saber, terão toda a razão!

Saio de manhã em direcção à Fortaleza de Hissar, casa do representante do Emir de Bukhara, tendo sido inicialmente construída no século XVI e recentemente reconstruída. Contudo, tudo no Tajiquistão tem, não outra história por detrás, mas imensas histórias por detrás..


 

O Tajiquistão ou toda a zona do povo Tajique, o qual se encontra actualmente dividido por 3 países, sendo o Uzbequistão e o Afeganistão os restantes, foi ocupada por tantos impérios ao longo da sua História que tentar encaixar todos e todas as implicações destas ocupações é tarefa impossível para mim neste momento. A História começa em Sarazm, da época do Neolítico e da Idade do Bronze (civilização de Oxus), depois o império Aqueménida de Ciro, II (o Grande), o império de Alexandre o Grande, o império Sassânida ou Neo-Persa, o império Samanida de Somoni, o herói nacional que dá nome à moeda local, o império Mongol de Gengis Khan, o império Timúrida, o Canato de Bucara e finalmente o império Russo, culminando na União Soviética.

Parecem muitos? Acreditem que não os consegui nomear todos. Quase todas as religiões foram aqui praticadas, desde o budismo, cristianismo, islamismo, hinduísmo, zoroastrianismo, maniqueísmo e muitas outras.



Sabem o que melhor resume esta minha primeira visita? À medida que Acmal, o fantástico guia e director do museu local, ia falando comigo e tentando saber também coisas da História de Portugal, eu dei por mim a dizer-lhe que a nossa História era muito recente, pois demorou um bocado a cair a ficha, mas quando Portugal foi formado com as actuais fronteiras já o Tajiquistão “ia” no império Mongol que, para eles, até é dos mais recentes. É toda uma nova perspectiva sobre antiguidade!

Os mongóis, como povo nómada, consideravam os povos sésseis inferiores e aniquilavam tudo por onde passavam, tendo sido um período terrível para os Tajiques, como para muitos outros na Ásia Central. Curiosamente, ou não, quando o Acmal fala do período bolchevique e de toda a destruição que causou, fá-lo de um modo mais racional, mas quando fala do período mongol, fá-lo com emoção na voz e no olhar. É um terror transmitido por setecentos anos num povo. Impossível ficar indiferente!

Muro da época Mongol – séc. XIII


Não sendo objectivo dar uma aula de História a quem quer que seja, deixo somente aqui uma semente para quem quiser saber mais pesquisar. Uma coisa vos garanto: duas horas neste complexo são a melhor lição de História da Ásia Central e da Humanidade que posso conceber.

 

Partilho algumas fotos desta visita convosco:

 





Depois de sair da fortaleza de Hissar ainda atordoado com tanta informação nova, dirigi-me então para uma mesquita abandonada do século XVI, levando comigo estas paisagens incríveis, mas acima de tudo uma enorme humildade de quem se sentiu esmagado por mais de 5000 anos de História!

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Duchambe I

Acordo às 12h00 hora local, 8 da manhã nas minhas pernas, 10 da manhã no meu estômago e 3h30 hora de Marte no meu cérebro!!!

Estou no décimo segundo andar de um prédio na zona central de Duchambe com vidros duplos e ouvem-se pássaros a cantar…assim ninguém resiste a acordar animado…mais ou menos…mas pronto, lembro-me que é o meu aniversário e desperto de vez.

Abro as cortinas e descubro a cordilheira montanhosa ainda coberta de neve que espreita sobre a cidade…descubro depois que só a primeira montanha que se vê escarpada tem 2500m de altitude…e a partir daí é sempre a subir até aos 7500m.

Abro a janela e vem um bafo quente…mas que é isto? Vejo a previsão do tempo…30 graus de máxima, o que sendo meio-dia não deve faltar muito.

Como estamos no Ramadão por estas zonas, encontrar restaurantes abertos ao almoço nem sempre é fácil segundo me explicam. Contudo, encontro um local catita que aparentemente é mais para expatriados, o que explica a clientela e o ambiente jazzístico/literário que se respira.

Comida de boa qualidade, atendimento simpático e eficiente...excelente primeira impressão!



De tarde tenho de tratar de assuntos mais mundanos: a mala de porão chegou partida e tenho de ir à Turkish Airlines. Lá chegado digo ao que vou e dão-me uma folha para preencher…pensava eu. Nada disso! Dão-me uma folha de impressão em branco e eu que escreva o que me vai na alma e o que quero pedir. Finalizados os procedimentos, deixo a mala defunta com a TA e sigo para o próximo destino: comprar um cartão de telemóvel, pois aparentemente dos imensos operadores aqui, a MEO não tem acordo com nenhum. Mais uma vez, atendimento simpático e eficiente, tendo eu o cartão no telemóvel a funcionar menos de 10min depois de lá ter entrado (incluindo verificação de passaporte e afins). Parecem as lojas da MEO, não parecem?

Devido ao Ramadão decido que é boa ideia ter comida em casa, pelo que vou a um supermercado local. Tem de tudo, mas com uma “disposição” diferente nos congelados. Estão a ver pernas de frango congeladas? Exacto! Estão todas num monte congeladas, coladas umas às outras!!! O mesmo se aplica ao peixe, etc. Deve ser giro "escolher" a que se quer levar. Noutra altura ficaria ali um bocado à espera para ver como se coisa se processa, mas decido seguir para o meu jantar de aniversário.

Atendimento super simpático, excelente comida, desde as entradas ao prato principal e sobremesa.

Agora falar com a família que me quer dar os parabéns e ir descansar, pois amanhã começa o deambular pela Ásia Central…a vida é boa!

P.S. Muito grato a todos os que encontraram tempo e carinho nas suas vidas para me parabenizarem. Bem-hajam!